5 coisas que aprendi neste lugar

Border Paraisópolis - Morumbi http://www.tucavieira.com.br/A-foto-da-favela-de-Paraisopolis

Photo by Tuca Vieira (Verified permission)

A ideia de LeoDreams é simples. Eu apanho sonhos de pessoas que encontro. Uma tarefa fácil, você pode pensar. Mas às vezes essa pergunta não é de todo fácil.

Quando vi esta imagem (à esquerda) pela primeira vez, eu tive certeza: Photoshop. 100%. Isto é estranho demais para ser verdade. Imagine que você vive em um desses apartamentos com uma piscina na sua varanda, olhando para a favela lá embaixo, sorrindo, tomando um gole de vinho, sussurrando para si mesmo: “Estou feliz por estar aqui em cima. É um lugar limpo e seguro. A vida é maravilhoso.“ Não, essa ideia é absurda demais.

Uma foto enganosa

Quando eu descobri que esta foto surpreendente não era uma montagem, fiquei com duas questões principais na minha cabeça.

1. Como é possível que os dois mundos coexistam?

2. Quais são os sonhos de pessoas que vivem no lado esquerdo e no lado direito?

Para responder a estas perguntas, eu tinha que visitar este lugar insano. No final do dia, eu provavelmente seria capaz de responder a estas perguntas.

Quinta-feira, 26 de maio:

Eu decidi ir para ‘Paraisópolis’. Para ser honesto: Estou um pouco nervoso. Embora eu tenha vivido um ano inteiro em uma favela (que era em 2000 o lugar mais perigoso do mundo  – maior taxa de crimes capitais) e nada de ruim tenha acontecido, tenho muito respeito ao ir para o ‘Paraíso’.

Pare de pensar. Vai lá! Eu pego um ônibus que me leva a este local. Eu chego. Sentimentos estranhos. Fico de pé direito ao lado do prédio olhando para o muro alto. Eu ando até a entrada para esperar por moradores. Quero apanhar um sonho e fico esperando por algum tempo. De repente, a porta se abre, mas não há ninguém. Um carro corre para fora da garagem subterrânea. Coloco meu sorriso na cara pra sinalizar que eu gostaria de falar com a motorista. Eu tenho dificuldades para ver a motorista. Janelas escuras do carro. Ela me rejeita balançando a cabeça  – e foge rapidamente. Eu não desisto. Eu continuo tentando falar com alguém que vive na torre. Uma hora e meia se passa.  Espero em vão. Nenhuma conexão é possível. Ninguém quer falar comigo.

Um mergulho

‘Se ninguém quer falar comigo, eu prefiro ir para o Paraíso’, eu penso. “Vou fazer amigos e apanhar sonhos’. Mergulho. Eu quero entrar no coração do Paraíso. Para obter uma visão decente para a torre. Enquanto estou andando, sinto que as pessoas estão olhando para mim. “Você está perdido?”, um cara pergunta. “Nem um pouco”, eu respondo e continuo a caminhar. Então eu sento perto de um cara que corta folhas de milho.  4-5 rapazes de cerca de 20 anos estão olhando para mim. Falando sobre mim. Um daqueles caras vem e pergunta de onde eu venho. Ele está totalmente drogado. Solvente. Anestesiado. Um outro cara quer saber o que está na minha mochila. “Nada, qual é o seu nome? ‘, eu tento distrair. O cara sentado ao meu lado diz: “Ele é bonzinho”. Ele não poderia saber, não falou comigo. Mas ele podia sentir que não queria causar quaisquer problemas. Eu sinto que a tensão está aumentando. Droga. Tenho que ir embora. Apesar de falar Português fluentemente, apesar de saber sobre as regras na favela, pela primeira vez eu me sinto mal em uma favela. Eu levanto e caminho até o morro, chegando mais perto da torre. Eu não quero ir embora do Paraíso. Como posso falhar? Estando perto da fronteira, percebo duas coisas:

1.Estando em frente à fronteira, não parece ser uma fronteira. Parece simplesmente um fim natural desta área.

2. Não se vê a quadra de tênis, nem as piscinas nas varandas. Estando do lado esquerdo olhando para cima para o prédio, não parece algo luxuoso. O prédio, na verdade, parece entediante e sem amor. Parece qualquer outro bloco de prédios.

Border Paraisópolis - Morumbi http://www.tucavieira.com.br/A-foto-da-favela-de-Paraisopolis

SAO PAULO, BRAZIL, 2005. The Paraisópolis favela (Paradise City shantitown) borders the affluent district of Morumbi in São Paulo, Brazil (Foto: Tuca Vieira)

Eu corro

Enquanto faço essas duas observações, vejo dois rapazes subindo o morro a pé. Ambos fazem parte da “galera”. Um deles, que tinha sido simpático comigo, se aproxima. Ele está na minha frente olhando fundo nos meus olhos. Eu não sei o que aconteceu, mas ele está ficando realmente com raiva de mim. “Abra sua mochila! O que tem nela?“, ele grita. A tensão atingiu o seu pico. “Não, nada”, eu repondo e cruzo os braços, demonstrando que não vou abrir minha mochila. Seu rosto está ficando mais irritado. Não. Este não é o meu território  – ele me afugenta. Eu saio correndo como um louco. Corro para fora da favela. Uma arrancada de 50 metros morro acima. Eu chego na estrada principal, ao lado do prédio. O que acabou de acontecer? Eu quase fui roubado. Adrenalina em minhas veias.

Sem sonhos, mas um monte de lições de vida

Estou de volta no mesmo local aonde cheguei algumas horas antes. Sem sonhos no meu bolso. Frustração e desconfiança na minha cabeça. Um cara passa e eu lhe pergunto se ele vive por ali. Ele diz que sim. Olhos verdes, pele negra, sem tensão no corpo. Desinteresse. “Você sabe que as pessoas no prédio têm uma piscina na varanda?”, pergunto a ele. Silêncio. Ele olha para mim como se perguntasse por que diabos estou falando com ele. “Você sabe, eu apanho sonhos de pessoas que eu encontro. Qual é o seu sonho?”, pergunto a ele com uma expressão desesperada. “Eu tenho alguns sonhos.” “Quais?”, quero saber. Ele me diz que precisa ir para a casa.

Não. Este lugar não é feito para sonhadores. Me sento, penso e faço mais três anotações.

3. Drogas. Solvente, crack e álcool. Drogas frequentemente usadas nas favelas. Substâncias que entorpecem seus consumidores. Essas drogas levam à passividade e à aceitação da terrível contradição presente.

4. Ansiedade pura. No final do dia, todo mundo tinha medo um do outro. As pessoas que vivem no prédio têm medo das pessoas do Paraíso. As pessoas do Paraíso têm medo de estranhos (policiais e informantes  – Eu acho que foi essa a razão de ele querer me espantar. Ele pode ter pensado que eu era um espião.). E eu também eu estava com medo das pessoas assustadas do Paraíso. Esta área exemplifica como a ansiedade fica exponenciada.

5. Isolamento crescente. Causado pela desconfiança e pelo desinteresse. Cercas altas, janelas escuras nos carros. Prédio com segurança máxima. Quanto mais segurança se cria, maior o isolamento.

Tudo o que eu quero agora é ir embora deste lugar. Estou triste que não consegui colher um único sonho. Mas depois de pensar sobre as experiências e lições de vida que eu tive hoje, a tristeza desaparece.

Um dia eu vou voltar a este lugar e apanhar sonhos. Vou estar preparado e eu prometo que não vou sair correndo como Forest Gump.

10 thoughts on “5 coisas que aprendi neste lugar

  1. Miguel Beirigo

    Que seu lindo sonho ilumine e traga à Luz muitos outros lindos sonhos, Leo! Yokattane!

    Reply
  2. Tayzer

    Primeiramente, Parabéns pelo artigo Leo, ele realmente demonstra a realidade de muitos lugares do Brasil. Vou falar em tópicos para facilitar a minha exposição:
    1. Tenha muito cuidado ao visitar alguma favela que não conheça, pois muitas são muito perigosas;
    2. Infelizmente esse retrato das drogas é muito comum nas favelas, falo isso pois morei na favela até uns 16 anos.
    3. Outro retrato triste é que muitas pessoas que moram na favela não pensam no futuro, não tem perspectiva de vida, elas não sonham. Tenho amigos que cresceram comigo que trabalham no tráfico, alguns já possuem filho, outros aceitam qualquer emprego e já se acomodam.
    4. Realmente as pessoas tem um medo muito grande das favelas, medo da realidade, pois em alguns lugares é possível ver pessoas drogadas, ou usando armas extremamente grandes.
    5. Talvez respondendo as questão 2, em relação ao lado esquerdo, creio que poucos sonham muito, já o lado direito, os sonhos podem ser grandes ou vazios como as pessoas do lado direito.

    Parabéns mais uma vez pelo artigo e pela coragem Leo!!!!!

    Reply
    1. Leo Post author

      Obrigado para a commentário, Tayzer.

      1. percebi isto. Nao quero mais ir pra um lugar assim sozinho, sem conecao pra ninguem,´.
      2. 🙁

      3. Percebi isto tbm. Se tem que trabalhar o dia inteiro pra sobreviver nao dá pra sonhar. Sonhar e uma coisa das pessoas privilegiados.

      4. como seria possivel diminuir o medo nestes lugares?

      5. Valeu! Vou voltar para Paraisópolis logo. Essa vez vou conhecer alguem naquele me acompanha (:

      Reply
  3. Dalila

    Você me levou pro seu momento e gostei. (Ótimo português pra começar).
    Fiquei com medo por ti mas confiante, pq sei bem como é a vida em uma favela.. eles não querem o seu mal, só se você trás ele com vc, que não era o caso.
    E sim, tem muitas pessoas na favela que sonham e muito, talvez alto demais, mas a realidade da vida tira esses sonhos.. mas os sonhos estão lá, em algum lugar no coração delas !
    Que bom que não vai desistir de pegar esses sonhos ! Eu tenho certeza que você vai conseguir sonhos bem incríveis.
    Só melhor ir acompanhado, nunca se sabe o que esses “sonhadores” podem fazer com vc, ainda mais sendo gringo Tobs.

    Se cuida, adorando o Blog !

    Reply
    1. Leo Post author

      Muito obrigado, Dalilia.
      Nao te preocupe mais, vou tomar mais cuidado no futuro! Sim, vou la de novo e conseguir apanhar sonhos das moradores de Paraisopolis. Vou te informar (:
      XX,
      Leo

      Reply

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *